Desde que assumiu a Reitoria da PUC-Rio, em julho de 2022, o padre Anderson Antonio Pedroso estabeleceu como meta a condução de um amplo processo de reestruturação administrativa e financeira da universidade. Em entrevista ao GLOBO, o reitor faz um balanço dos resultados e destaca a reversão de um quadro histórico de déficit.
Segundo ele, um dos pilares dessa mudança é o aumento de 29% nas receitas com projetos e convênios em pesquisa e ensino. As novas parcerias vêm até da China, no campo da energia limpa. Também são intensificadas ações na área da inteligência artificial, à luz dos desafios éticos contemporâneos.
O reitor apresenta ainda os preparativos para a implantação do curso de Medicina, previsto para 2027.
“AGORA A PESQUISA ESTÁ AINDA MAIS FORTALECIDA”
Desde que o senhor iniciou a gestão na PUC-Rio, a recuperação das contas da universidade é pauta. Qual o quadro atual?
O quadro mudou muito. Quando cheguei, a universidade acumulava um déficit de R$ 600 milhões ao longo de dez anos. Esses dados precisam ser bem compreendidos, porque se tratava de um déficit de R$ 60 milhões por ano, relacionado às atividades de ensino e pesquisa.
Era um déficit estrutural, já que a universidade precisava de aportes para manter sua estrutura. Estamos vencendo um problema histórico. Ao mesmo tempo, estamos aumentando as reservas da universidade. São operações distintas: de um lado, reduzimos o déficit; de outro, fortalecemos as reservas.
Já é possível falar em reversão da tendência de déficit?
Sim. Trata-se de um resultado consolidado, que vai além do ensino e da pesquisa. Envolve projetos, convênios, resultado financeiro, aplicações e a reorganização da engenharia financeira da universidade.
Registramos um salto. Em 2024, a PUC-Rio já teve um superávit de R$ 40,3 milhões. Em 2025, esse valor chegou a R$ 80,9 milhões. Esse é o resultado global do exercício da universidade, considerando todas as receitas operacionais, custos diretos, despesas e resultados financeiros. Em síntese, um superávit histórico.
Houve dificuldade para convencer a comunidade universitária da necessidade das mudanças?
Quando cheguei, sim. Muitas vezes, quando eu dizia que precisávamos melhorar a graduação, a interpretação era de que eu queria enfraquecer a pós-graduação. Não era isso. Queríamos melhorar as salas de aula, apoiar os bolsistas e fortalecer toda a universidade.
Hoje, os departamentos compreendem que esse modelo era necessário para a sobrevivência institucional.
Em termos de resultados, o que mais o senhor destaca?
Desenvolvemos novas frentes de pesquisa. As receitas com projetos e convênios cresceram 29%, chegando a R$ 400,5 milhões, o que é fundamental. Nunca tivemos tantos projetos.
Encontrei uma universidade extraordinária, mas agora a pesquisa está ainda mais fortalecida, e a comunidade científica percebe isso.
De que forma o senhor resumiria esse processo?
Durante anos, a PUC-Rio navegou como um grande navio carregado, mantendo sua missão, mas com o porão cheio de água e peso mal distribuído. A reforma de gestão e o crescimento de projetos e receitas permitiram não só bombear essa água para fora como organizar o lastro e encher os tanques de reserva.
Hoje o navio segue na mesma direção, mas com equilíbrio, segurança e combustível de sobra para atravessar mares mais difíceis.
Há novas rotas no horizonte?
A novidade que tivemos em 2024 e 2025 é que, além de tirar a água do porão, o navio começou a receber carga mais valiosa e bem arrumada: são justamente esses 29% de crescimento em pesquisa, novos projetos, convênios e receitas.
Eu fui para a China, por exemplo, conseguimos fazer uma negociação com a China no campo de energia limpa.
Por falar em pesquisa, a inteligência artificial é uma área que tem merecido atenção da universidade, não?
A pesquisa em inteligência artificial sempre existiu na PUC. A universidade sempre teve muitos pesquisadores, grupos de excelência e iniciativas relevantes.
Mas faltava uma visão conjunta sobre como aproveitar melhor esse conhecimento. Esse alinhamento ganhou força quando recebemos a maior doação da história da PUC-Rio: R$ 40 milhões do Instituto Behring, criado pelo ex-aluno Alex Behring.
Esse gesto foi um sinal muito importante de confiança na instituição e na gestão. A partir daí, criamos o Instituto de Inteligência Artificial. Os professores continuam realizando suas pesquisas, mas agora existe uma coordenação estratégica maior.
Como a PUC-Rio, uma Universidade Católica, trabalha a IA de forma conceitual, inclusive à luz da encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV, que aborda o tema?
Ela não é uma encíclica sobre inteligência artificial. É sobre a humanidade em tempos de lógica algorítmica. O Papa coloca o ser humano no centro da discussão.
Esse também é um diferencial da PUC-Rio. Nosso curso de IA está profundamente conectado às humanidades, à sustentabilidade e às políticas públicas.
Queremos formar os melhores profissionais para esse novo mundo da IA. Não sabemos exatamente como será o mercado daqui a alguns anos. Por isso, não basta ensinar as ferramentas atuais. Precisamos preparar pessoas capazes de acompanhar as transformações.
O diferencial é que não estamos focados apenas na dimensão técnica. Isso pode ser aprendido ao longo da carreira. Nosso objetivo é formar pessoas capazes de pensar a inteligência artificial.
Há também o curso de Medicina. Como está esse processo de implantação?
Avançamos em praticamente todas as etapas. Agora falta apenas a apresentação dos espaços físicos ao Ministério da Educação.
Neste momento, estamos nos preparando para a visita do MEC. Um dos últimos passos do processo é concluir o sétimo andar do Edifício Kennedy completamente preparado, reformado e equipado.
Já está praticamente pronto. Os equipamentos estão chegando, são de altíssimo nível. Será uma medicina integrada à IA, à saúde pública e a uma formação humanista.
E como estão as negociações para os campos de prática e residência médica?
A prefeitura garantiu os hospitais que servirão de base para a residência. O Miguel Couto, na Gávea, é uma referência em trauma e emergência. Atende a toda a cidade e desempenha um papel fundamental.
O Hospital Rocha Maia, em Botafogo, também é uma referência. Atuaremos tanto na Zona Sul quanto em áreas periféricas da cidade. São realidades diferentes e complementares.
A expectativa é realizar vestibular no fim do ano e iniciar a primeira turma em 2027?
Sim, exatamente. Está muito próximo. Eu não diria que está pronto, porque ainda há trabalho a fazer. Mas é um projeto maravilhoso.
Conseguimos unir saúde pública e formação acadêmica. Ninguém pode dizer que o objetivo é outro. O que queremos é formar bons médicos, com excelente formação tecnológica, forte capacidade de pesquisa e compromisso social.
